Posso sentir a força da gravidade puxando meu corpo preso ao cinto de material sintético. Pedaços do que foram os vidros voam por toda a parte. O impacto da minha cabeça contra o balão de ar comprimido esmaga minha face me protegendo de uma colisão fatal contra o volante.
O carro está no ar, de ponta cabeça... Perder o controle a cento e quarenta e cinco milhas com um carro de aerodinâmica equivalente a um tijolo não é animador. Parei de sentir dor ha alguns milésimos. Estou sentado no meio fio vendo meu Buick Regal rolar feito um brinquedo. Sim, triste... Mas pelo carro; a morte não é algo a ser temido. Tinha noção das consequências antes de grudar o pedal do acelerador no assoalho.
Pedaços de lata e vidro estão voando na calçada. As pessoas, apenas algumas, por ser perto da meia noite, estão desesperadas, correndo e ligando para os paramédicos. Meu corpo já está inerte, não tem mais o que fazer. Talvez elas fiquem tristes ao saber que estou morto quando conseguirem chegar ao meu corpo.
Minha vida acabou. Não sei para onde meu espírito vai ou o que vai acontecer com ele... Ou melhor, comigo. Provavelmente irei para algum lugar escuro e fétido, onde terei que comer raízes e permanecer lá até me dar conta do que fiz.
Suicídio? Talvez. Sei o que fiz; sei como ia acabar, mas tive a sensação mais prazerosa da minha vida ao sentir as explosões no bloco de trezentas e cinquenta polegadas por centímetro cúbico e o virabrequim a sete mil e quinhentas rotações por minuto; o ponteiro do velocímetro subindo sobre os duzentos e vinte quilômetros por hora.
Sim, meu corpo morreu; mas não me arrependo de cada milésimo em que estive acelerando meu carro.
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